Carlos Imlau · Blog

O mês da IA em outubro de 2026: o que mudou e o que importa para quem trabalha em Portugal

Carlos Imlau, AI Product Builder · Formador certificado (CCP) · IA aplicada ao trabalho ·

Resumo

Em outubro de 2026, a IA entrou mais fundo nas ferramentas do escritório (o Claude passou a editar Google Docs, Sheets e Slides), o Gemini gratuito ficou mais limitado e a OpenAI começou a marcar o texto do ChatGPT na UE. A Europa começou a fiscalizar o AI Act e, em Portugal, um estudo mostrou que metade das empresas já usa IA, mas só 16% a integra a sério.

  • A 6 de outubro, o Claude passou a trabalhar dentro do Google Docs, Sheets e Slides, em beta para os planos pagos
  • Desde 9 de outubro, quem usa o Gemini sem plano passa a usar sobretudo o modelo Flash-Lite
  • A OpenAI começou a pôr uma marca de água invisível no texto do ChatGPT e do Codex na UE; os sistemas já no mercado têm até 2 de dezembro de 2026 para marcar o conteúdo gerado
  • O AI Office fez os primeiros pedidos formais de informação à OpenAI e à Anthropic
  • Em Portugal, 51% das empresas usam IA, mas só 16% das que a usam chegaram a uma integração avançada

O que mudou na IA em outubro de 2026? Para quem trabalha, três coisas: a IA entrou mais fundo nas ferramentas de todos os dias (o Claude passou a editar documentos e folhas de cálculo do Google), as versões gratuitas ficaram mais curtas (o Gemini sem plano passou a usar sobretudo um modelo mais pequeno) e as regras europeias começaram a ter dentes, com a primeira fiscalização do AI Act e as marcas de água no texto gerado. Em Portugal, o mês trouxe números que confirmam o que se sente no terreno: muita gente já usa IA, pouca a usa bem.

Este é o resumo mensal que faço para quem não tem tempo de acompanhar tudo. Escolhi seis assuntos de outubro e, para cada um, explico o que aconteceu, porque importa a uma empresa ou a quem está a começar, e onde ler a fonte.

1. O Claude passou a trabalhar dentro do Google Docs, Sheets e Slides

A 6 de outubro de 2026, a Anthropic lançou um complemento que abre o Claude numa barra lateral ao lado do ficheiro, no Google Docs, no Sheets e no Slides. Está em beta pública para todos os planos pagos e instala-se a partir do Google Workspace Marketplace, como explicam a página de ajuda da Anthropic e o 9to5Google. No Docs reescreve secções sem estragar a formatação, no Sheets escreve fórmulas e monta tabelas, no Slides cria diapositivos a partir do tema que já tens. Há um modo que mostra as alterações antes de as aplicar.

Porque importa: acaba o vaivém de copiar texto para o chat e colar de volta. Para uma equipa que já vive no Google Workspace, é a forma mais simples de pôr a IA no trabalho real. O conselho: liga o modo de pré-visualização e revê o que muda, sobretudo em folhas de cálculo com números que vão para clientes.

2. O Gemini gratuito ficou mais limitado

Desde 9 de outubro de 2026, quem usa o Gemini sem plano pago tem o modo automático por omissão: a maioria dos pedidos vai para o modelo Flash-Lite e só alguns, mais difíceis, sobem para modelos maiores, segundo a página de ajuda da Google. Todos os planos ganharam um controlo de esforço (baixo, médio ou alto), em que o esforço alto dá respostas mais completas mas gasta mais do limite de uso. A Digital Trends resume as diferenças entre planos: o modelo Pro fica para o AI Pro e acima.

Porque importa: se a tua equipa usa contas gratuitas para trabalho a sério, a qualidade das respostas pode ter mudado sem ninguém dar por isso. É uma boa altura para decidir, com critério, que ferramenta paga faz sentido e quem precisa dela. Já escrevi sobre como avaliar uma ferramenta de IA sem cair no entusiasmo do lançamento.

3. A OpenAI começou a marcar o texto do ChatGPT na UE

A 5 de outubro de 2026, a OpenAI anunciou que vai pôr uma marca de água invisível no texto gerado pelo ChatGPT e pelo Codex na União Europeia, ao longo das semanas seguintes, conta a PYMNTS. Na API, a marca existe para alguns modelos, mas vem desligada por omissão. O detetor, por agora, só está aberto a investigadores e organizações aprovados.

O motivo é o artigo 50.º do AI Act, que obriga os fornecedores de IA generativa a marcar o conteúdo gerado de forma legível por máquina. Os sistemas que já estavam no mercado antes de 2 de agosto de 2026 têm um período de graça até 2 de dezembro de 2026.

Porque importa: a obrigação de marcar é de quem fornece o sistema, não de quem escreve um e-mail com ajuda do ChatGPT. Mas se a tua empresa tem um produto ou uma automação que gera texto para clientes, convém saber de onde vem esse texto e se o fornecedor já cumpre. Expliquei a parte do aviso nos chatbots no guia sobre agentes de IA no apoio ao cliente.

4. A Europa começou a fiscalizar o AI Act

A 14 de outubro de 2026, a comissária Henna Virkkunen anunciou que o AI Office começou a aplicar o AI Act: enviou à OpenAI e à Anthropic pedidos formais de informação sobre segurança, avaliação externa e monitorização dos modelos, depois de a Comissão considerar insuficientes os documentos que as duas empresas tinham entregado, segundo a Euronews. Em causa estão dois incidentes do verão com agentes em fase de testes. Há juristas que contestam que a lei se aplique a casos que aconteceram antes de os modelos chegarem ao mercado.

Porque importa: para uma PME, isto não muda obrigações de um dia para o outro. Muda o tom. O AI Act deixou de ser um documento em Bruxelas e passou a ter alguém a fazer perguntas. A obrigação que já toca a quase todas as empresas é a literacia em IA, e expliquei-a passo a passo no artigo sobre literacia em IA e o AI Act.

5. Portugal: metade das empresas usa IA, poucas a integram

Um estudo da Strand Partners para a AWS, divulgado a 19 de outubro de 2026 e citado pelo Jornal Económico, diz que 51% das empresas portuguesas já adotaram ferramentas de IA e que cerca de 80% das que a usam veem ganhos de produtividade. Mas só 16% das empresas que usam IA chegaram a uma integração avançada, e 58% ficam por usos básicos.

Três dias depois, a 22 de outubro, o IAPMEI apresentou o PME Digital+: 2,47 milhões de euros, cofinanciados a 85% pelo FEDER no Compete 2030, para cerca de 600 PME e mais de 5.000 participantes do Norte, Centro e Alentejo, em 24 meses, com 48 ações de sensibilização e formação sobre IA, automação, cibersegurança e digitalização, segundo o Jornal Económico. É um programa de formação e diagnóstico, não um apoio ao investimento.

Porque importa: o problema já não é "começar a usar IA", é passar do chat solto para processos que funcionam todos os dias. Esse salto faz-se com casos reais da empresa, não com mais uma demonstração. É o que proponho na formação para empresas: trabalhar sobre as tarefas da tua equipa.

6. Formação em IA para 100 mil trabalhadores e o aviso do FMI

No debate do Orçamento do Estado para 2027, a 28 de outubro de 2026, o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, anunciou formação em IA para cerca de 100 mil trabalhadores, segundo a Lusa, no DNoticias. Não foram divulgados orçamento nem calendário.

Antes, nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial (12 a 18 de outubro), a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, disse que a IA vai afetar cerca de 40% dos empregos no mundo e cerca de 60% nas economias avançadas, e chamou-lhe "um tsunami lento", conta a RTP.

Porque importa: "afetar" não é o mesmo que "eliminar": inclui empregos que ficam reforçados pela IA. A diferença entre um caso e o outro está muitas vezes em quem aprende a usar as ferramentas com critério. Para quem está a começar, a melhor resposta a um aviso destes não é o pânico, é um hábito: aprender um pouco todas as semanas, com casos reais.

O que observar em novembro?

Perguntas frequentes

Tenho de pôr uma marca de água nos textos que escrevo com o ChatGPT?

Não. A obrigação do artigo 50.º do AI Act de marcar o conteúdo de forma legível por máquina é dos fornecedores dos sistemas de IA generativa. Há outras regras de transparência, como avisar que a pessoa está a falar com um chatbot, que podem tocar a empresa que põe esse chatbot a funcionar.

Vale a pena continuar com o Gemini gratuito no trabalho?

Para tarefas simples, pode chegar. Desde 9 de outubro, a maioria dos pedidos sem plano vai para o modelo mais pequeno, por isso testa as tarefas que mais usas e compara. Se a qualidade baixou, um plano pago para quem usa todos os dias costuma sair mais barato do que o tempo perdido a corrigir.

O PME Digital+ dá dinheiro para comprar ferramentas de IA?

Não. Pelo que foi anunciado, financia ações de formação, diagnóstico e demonstração, com recursos gratuitos no site do IAPMEI. Não é um apoio ao investimento.

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